Floresta em pé também é economia em movimento: o que mostra o primeiro estudo sobre o impacto econômico do turismo de observação terrestre no Litoral Norte da Bahia

Pela primeira vez, foi medido o impacto econômico do Turismo de Observação de Vida Silvestre (TOVS) terrestre na Mata Atlântica do Litoral Norte da Bahia. O estudo teve como foco a observação de aves, da preguiça-de-coleira (Bradypus torquatus) e do ouriço-preto na floresta do Aruá, em Praia do Forte – Mata de São João, litoral norte da Bahia, e revela algo que muitas vezes passa despercebido: a floresta preservada não é apenas um patrimônio ambiental, mas também um motor econômico para o município.
A pesquisa é fruto de uma parceria entre o Instituto Preguiça-de-Coleira (IPDC), Entre Parques, o Aruá Observação de Vida Silvestre, reunindo dados coletados em 2025 e 2026.

Os números do turismo terrestre
A análise partiu de um gasto médio de R$ 1.580 por visita e de cerca de 2.140 visitantes por ano na floresta do Aruá. A partir desses dados, o estudo estimou os seguintes impactos:

R$ 3,4 milhões em vendas
R$ 730 mil em renda gerada
R$ 1,6 milhão em valor agregado ao PIB
62 postos de trabalho
R$ 94 mil em arrecadação tributária

O cálculo segue a lógica do MGM (Money Generation Model), que combina o número de visitantes, o gasto médio e um multiplicador econômico. Essa metodologia é importante porque captura não apenas o impacto direto — o dinheiro que entra com a atividade —, mas também os efeitos multiplicadores que se espalham por toda a cadeia local, beneficiando hospedagem, alimentação, transporte, serviços de guias e o comércio em geral.

A floresta não está sozinha: o exemplo das baleias
O turismo de observação de natureza em Praia do Forte já vinha sendo estudado a partir do mar. O artigo de Spanholi et al. (2025) mediu o impacto econômico do turismo de observação de baleias jubartes, aplicando 128 questionários a visitantes do Projeto Baleia Jubarte durante a temporada de 2023.
Os resultados encontrados foram expressivos: um gasto médio diário de R$ 841,73 por pessoa, com impacto econômico total estimado entre R$ 4,4 e R$ 9,3 milhões, geração de 85 a 122 empregos e arrecadação de R$ 416 mil a R$ 816 mil em impostos indiretos.
Os dois estudos se complementam. Juntos, mostram que o turismo de observação de natureza já é uma realidade que movimenta financeiramente o município, gera emprego e renda e leva adiante a mensagem da preservação.

Um mesmo visitante, dois atrativos complementares
Um dos achados mais relevantes diz respeito ao perfil de quem visita a região. O ecoturista que vem observar a fauna terrestre tem características muito semelhantes às de quem vem ver as baleias: alta escolaridade, renda elevada e forte motivação pela natureza. Além disso, a Praia do Forte é o principal ponto de hospedagem para os dois grupos.
Isso aponta para um enorme potencial de complementaridade entre as iniciativas. Praia do Forte já dispõe de um ecossistema de ecoturismo funcionando e economicamente relevante, com dois atrativos icônicos que se completam — as baleias no mar e a preguiça-de-coleira na floresta. O maior ganho para a região está justamente em conectar essas duas experiências, oferecendo ao visitante um roteiro integrado de observação da natureza ao longo de todo o ano.

O valor econômico como instrumento de conservação
Mais do que apresentar números, o estudo reforça um argumento central: o valor econômico da natureza é um instrumento poderoso de conservação. Quando se demonstra que a floresta em pé gera emprego, renda e arrecadação, fica evidente que conservar deixa de ser um custo e passa a ser um investimento estratégico para o desenvolvimento local.
A floresta preservada vai muito além de proteger espécies ameaçadas. Ela sustenta cadeias produtivas, valoriza o território e oferece uma alternativa concreta de desenvolvimento que mantém os ecossistemas vivos.

E seguimos juntos conectando preguiças, pessoas e florestas.

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